Como eu virei vegana

Leia a versão em inglês aqui.

vegetables and fruits in a table demonstrating the variety of vegan options

Ok, é uma longa história, mas prometo que tentarei torná-la o mais agradável possível. Tenho orgulho de dizer que a primeira pessoa que falou comigo sobre Vegetarianismo ainda é uma das minhas mais queridas amigas: obrigada, Aline. Depois dela, muitos outros amigos me ensinaram coisas sobre Vegetarianismo e Veganismo (Joyce, Andreia, Hector, Marina, Stephanie, Suellem e MUITOS OUTROS). Graças a todas essas pessoas, minha própria pesquisa e vontade de fazer algo a respeito do  que descobri, mudei para uma dieta e estilo de vida Vegano há um ano e uns meses. E essa é a história de como isso aconteceu. 

Eu nasci em São Paulo. Meus pais vieram do Nordeste do país, precisamente de Pernambuco. Com poucas condições de vida, meu pai e minha mãe foram ensinados que botar carne na mesa era um sinal de prosperidade e de que as coisas estavam indo bem. Eles compartilham isso com seus filhos: eu, meu irmão mais velho e minha irmã mais nova. Então, quando minha amiga Aline me contou pela primeira vez sobre não comer carne, isso soou totalmente fora do meu entendimento. Como isso poderia ser possível?

Lembro que ela mencionou a crueldade do processo. Como vacas, frangos, porcos e peixes eram mortos apenas para agradar nosso paladar. Lembro-me de admirá-la por sua bondade e seu senso de justiça. Foi então que tentei uma dieta Vegetariana pela primeira vez: 13 anos atrás, aos 18 anos. Eu consegui praticá-la durante seis meses, contra todas as preocupações da minha mãe em relação ao que colocar no meu prato. Ela simplesmente não podia aceitar isso. Parei depois de pegar um salgado na cafeteria da faculdade. Pedi um salgado de quatro queijos e eles me venderam um de frango e queijo. Por mais bobo que pareça, foi isso que me fez voltar a comer carne naquela época. Pouco tempo depois, me comprometi a seguir a campanha “Segunda-feira sem carne”. A ideia do Vegetarianismo estava em minha mente. Eu sabia que era possível. Eu sabia que não era difícil. Eu sabia que dava pra fazer.

De tempos em tempos, eu encontrava novos Vegetarianos ao meu redor. Faculdade, trabalho, academia, eventos de música, amigos íntimos que se tornaram Vegetarianos. Foi quando minha melhor amiga do ensino médio (Andreia) se tornou Vegana. Isso era algo totalmente novo: como seria possível viver sem carne, sem frango e peixe e também sem queijo? Eu nem estava mais pensando no meu café com leite, eu havia mudado para leite de soja já a alguns anos. Eu só podia admirá-la. Eu continuava tentando o Vegetarianismo várias vezes. Eu aguentava por três meses, seis meses, dez meses. Depois passei a véspera de Ano Novo de 2016 com outra grande amiga minha, coincidentemente, a irmã mais nova (Joyce) daquela garota que havia se tornado Vegana. Ela estava estudando para se tornar uma Veterinária e me contou muitas coisas novas sobre a crueldade que expomos aos animais. As doenças relacionadas ao consumo de carne e laticínios. A partir daquele momento, eu me tornei estritamente Vegetariana, plenamente consciente de que não era suficiente. Eu também tentaria uma dieta Vegana com todas as minhas forças.

Comecei a olhar para o mercado vegano em São Paulo. Naquela época, não era grande coisa. Você não conseguia encontrar facilmente produtos Veganos. Comida vegana não era uma coisa popular nos restaurantes. Até as saladas de São Paulo (e na maior parte do país) teriam alguma coisa com leite, ovos ou carne. Comecei a mudar minhas refeições e a comer muito mais vegetais. Comecei a evitar queijo e ovos. Comprar iogurte de soja em vez do iogurte de leite. Até rolou um “piquenique vegano” com alguns dos meus amigos da faculdade. O Veganismo tinha chegado para ficar. 

Aí eu me mudei para a Irlanda. E, cara, fiquei impressionada ao descobrir que os produtos Veganos estavam disponíveis em todas os mercados. Era tão fácil simplesmente ir no Tesco / Lidl e comprar um pedaço de queijo num preço legal ao invés de correr pra internet e tentar encontrar algo que não fosse tofu e não custasse metade do meu salário. Eu poderia pedir pizza vegana e receber delivery em casa. Encontrar receitas e ter dinheiro suficiente pra comprar os ingredientes. Comecei a fazer pelo menos uma refeição totalmente Vegana por dia, em alguns dias duas refeições veganas, três. A vida é fantástica.

Mesmo tendo fácil acesso a tudo, ainda demorei quase um ano para me tornar totalmente vegana. No dia 22 de julho de 2018, eu fiz a transição. Lembro-me de que era uma noite de sábado no pub e decidi me concentrar no novo objetivo: a partir de amanhã serei Vegana. Meu gerente daquele turno me chamou no meio da noite e me entregou uma caixa de chocolates, daqueles bem chiques. Ele tinha ganho de uma cliente, mas alérgico a lactose, não podia comer, então me deu. Comi dois bombons da caixa e guardei o resto para meus flatmates. Ainda não era meia-noite. Essa foi a última coisa não-vegana que eu comi. E nunca mais olhei para trás.

Durante meu tempo como vegano, criei muitas receitas. Eu comi muitas coisas. Eu visitei ótimos restaurantes. Vi alguns documentários. Li alguns livros e artigos sobre comida, requisitos dietéticos e crueldade animal. Eu consumi todos os meus antigos produtos de beleza e comprei novos, totalmente cruelty-free e Veganos. Me tornei muito mais consciente das minhas escolhas de consumo e comecei a comprar coisas com menos plástico, produtos mais naturais e ecológicos, e a comprar menos em todos os sentidos. Tornei minha bicicleta uma maneira de reduzir minha pegada de carbono. Compartilhei muitas informações sobre crueldade animal, veganismo e por que essa não é apenas uma nova dieta, mas um estilo de vida que certamente pode salvar vidas e resgatar nosso planeta do iminente caos climático. Eu até influenciei algumas pessoas a reduzir o consumo de carne e comprar produtos mais sustentáveis.

Levei 12 anos desde que ouvi falar de vegetarianismo pela primeira vez até virar vegana. Todo mundo sabe quais são suas próprias limitações, como seu corpo funciona, o que te faz bem. Eu sempre aconselho as pessoas a respeitarem isso. Pode demorar um dia. Um ano. Duas semanas. Quatro meses. Se você estiver disposto a tentar, chama um amigo ou um conhecido pra te ajudar.  Eu posso ajudar se você quiser e terei a maior honra de fazer isso!

Só posso dizer que não me arrependo por nenhum segundo. Foi a melhor decisão que já tomei em toda a minha vida. Eu não sinto falta de nada. Muito pelo contrário: minhas refeições são muito mais criativas, cheias de cores, texturas e saúde. Eu nunca me senti tão bem. E só posso dizer que está melhorando.

Feliz World Vegan Day, pessoal. E #GoVegan, carai!

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